segunda-feira, 10 de março de 2014

A natureza das Escrituras: Seu lado divino e humano - Gordon Fee


A NATUREZA DA ESCRITURA ( O LADO DIVINO)

Uma razão mais significante para a necessidade de interpretação acha-se na natureza da própria Escritura. Historicamente a igreja tem compreendido a natureza da Escritura de maneira muito semelhante à sua compreensão da Pessoa de Cristo — a Bíblia é, ao mesmo tempo, humana e divina. Conforme o Professor George Ladd certa vez expressou o fato: "A Bíblia é a Palavra de Deus dada nas palavras de (pessoas) na história." É esta natureza dupla da Bíblia que exige da nossa parte a tarefa da interpretação.

Porque a Bíblia é a Palavra de Deus, tem relevância eterna; fala para toda a humanidade em todas as eras e em todas as culturas. Porque é a Palavra de Deus, devemos escutar — e obedecer. Mas porque Deus escolheu falar Sua Palavra através das palavras humanas na história, todo livro na Bíblia também tem particularidade histórica; cada documento é condicionado pela linguagem, pela sua época, e pela cultura em que originalmente foi escrito (e nalguns casos também pela história oral que teve antes de ser escrito). A interpretação da Bíblia é exigida pela "tensão" que existe entre sua relevância eterna e sua particularidade histórica.

Há alguns, naturalmente, que acreditam que a Bíblia é meramente um livro humano, e que contém somente palavras das pessoas na história. Para estas pessoas, a tarefa de interpretar é limitada à pesquisa histórica. Seu interesse, como no caso de Cícero ou Milton, é com as idéias religiosas dos judeus, de Jesus, ou da igreja primitiva. A tarefa para eles, no entanto, é puramente histórica. O que estas palavras significavam para as pessoas que as escreveram? O que pensavam acerca de Deus? Como se compreendiam a si mesmos?

Há, do outro lado, aqueles que pensam na Bíblia somente em termos da sua relevância eterna. Porque é a Palavra de Deus, tendem a pensar nela como sendo apenas uma coletânea de proposições a serem cridas e de imperativos a serem obedecidos — embora, invariavelmente, haja grande medida de selecionamento e escolha a ser feita entre as proposições e imperativos. Há, por exemplo, cristãos que baseados em Deuteronômio 22.5 ("A mulher não usará roupa de homem"), argumentam literalmente que a mulher não deve usar calça comprida nem short. As mesmas pessoas, porém, raras vezes tomam literalmente os demais imperativos naquela lista, que incluem a construção de um parapeito no telhado da casa (v. 8), a não plantação de dois tipos de sementes numa vinha (v. 9), e fazer borlas nos quatro cantos do manto (v. 12).

A Bíblia, no entanto, não é uma série de proposições e imperativos; não é simplesmente uma coletânea de "Ditados da parte do Presidente Deus," como se Ele olhasse para nós aqui em baixo, estando Ele no céu, e dissesse: "Ei, vocês aí em baixo, aprendam estas verdades. Número 1: Não há Deus senão Um só, e Eu o sou. Número 2: Eu sou o criador de todas as coisas, inclusive a humanidade" — e assim por diante, chegando até a proposição número 7.777 e ao imperativo número 777.

Estas proposições, naturalmente, são verdadeiras; e acham-se na Bíblia (embora não nessa forma exata). Realmente, semelhante livro poderia ter tornado muitas coisas mais fáceis para nós. Mas, felizmente, não foi assim que Deus escolheu falar conosco. Pelo contrário, escolheu falar Suas verdades eternas dentro das circunstâncias e eventos específicos da história humana. É isto também que nos dá esperança. Exatamente porque Deus escolheu falar no contexto da história humana, real, podemos ter certeza que estas mesmas palavras falarão novamente em nossa própria história "real", conforme têm feito no decorrer da História da igreja.

O LADO HUMANO DAS ESCRITURAS

O fato de que a Bíblia tem um lado humano é nosso encorajamento; também é o nosso desafio, e é a razão porque precisamos interpretar. Duas coisas precisam ser notados quanto a isto.

1. Ao falar através de pessoas reais, numa variedade de circunstâncias, por um período de 1500 anos, a Palavra de Deus foi expressada no vocabulário e nos padrões de pensamento daquelas pessoas, e condicionada pela cultura daqueles tempos e circunstâncias. Ou seja: a Palavra de Deus para nós foi primeiramente a Sua Palavra a elas. Se iriam ouvi-la, somente poderia ser através de eventos e linguagem que elas poderiam ter entendido. Nosso problema é que estamos muito longe delas no tempo, e às vezes no pensamento. Esta é a razão principal porque precisamos aprender a interpretar a Bíblia. Se a Palavra de Deus acerca das mulheres usando roupas de homens, ou das pessoas que devem ter parapeitos ao redor das casas pode falar conosco, precisamos saber primeiro o que dizia aos seus ouvintes originais — e por que.

Logo, a tarefa de interpretar envolve o estudante/leitor em dois níveis. Primeiramente, é necessário escutar a Palavra que eles ouviram; devem procurar compreender o que foi dito a eles lá e então. Em segundo lugar, devemos aprender a ouvir essa mesma Palavra no aqui e agora. Diremos mais acerca destas duas tarefas, abaixo.

2. Um dos aspectos mais importantes do lado humano da Bíblia é que Deus, para comunicar Sua Palavra para todas as condições humanas, escolheu fazer uso de quase todo tipo de comunicações disponível: a história em narrativa, as genealogias, as crônicas, leis de todos os tipos, poesia de todos os tipos, provérbios, oráculos proféticos, enigmas, drama, esboços biográficos, parábolas, cartas, sermões e apocalipses.

Para interpretar corretamente o "lá e então" dos textos bíblicos, não somente se deve saber algumas regras gerais que se aplicam a todas as palavras da Bíblia, como também se deve aprender as regras especiais que se aplicam a cada uma destas formas literárias (gêneros). E a maneira de Deus comunicar-nos Sua Palavra no "aqui e agora" freqüentemente diferirá de uma forma para outra. Por exemplo, precisamos saber como um salmo, uma forma que freqüentemente era dirigida a Deus, funciona como a Palavra de Deus para nós, e como os Salmos diferem das "leis," que freqüentemente eram dirigidas a pessoas em situações culturais que já não existem mais. Como tais "leis" nos falam, e como diferem das "leis" morais, que sempre são válidas em todas as circunstâncias? Tais são as perguntas que a natureza dupla da Bíblia nos impõe.


Copyright © 1984 Edições Vida Nova. Todos os direitos reservados.
Reproduzido com a devida autorização.

Fonte: Entende o que lês? - Gordon Fee e Douglas Stuart.

sábado, 1 de março de 2014

João Calvino um breve comentário sobre sua vida: Erros e acertos - John Piper


João Calvino era muito diferente de Lutero, mas igualmente filho de uma geração cruel e rude. Ele e Lutero nunca se encontraram, mas se respeitavam profundamente. Quando Lutero leu a defesa de Calvino sobre a Reforma, dirigida ao cardeal Sadoleto em 1539, disse: '' Eis aqui uma obra que possui mãos e pés. Alegro-me que Deus levante tais homens''.¹ Calvino retribuiu esse respeito a Lutero na única carta que conhecemos, que Lutero nunca recebeu. '' Se ao menos eu pudesse voar até você para poder, mesmo que por algumas horas, desfrutar da alegria da sua companhia, pois preferiria, e seria muito melhor (...) conversar pessoalmente com você; mas vendo que isso não nos será concedido na Terra, espero que isso ocorra brevemente no reino de Deus.''² Conhecendo suas circunstâncias melhor do que nós as conhecemos, e talvez, conhecendo melhor os seus pecados, eles podiam passar, nas suas afeições, por cima das falhas um dos outros com mais facilidade.

Não tem sido fácil para os outros. A grandeza dos ''louvores'' e elogios dado a João Calvino tem sido igualada à seriedade e severidade de críticas. Em sua época, até mesmo seus contemporâneos brilhantes se fascinaram com a compreensão de Calvino sobre a plenitude da Escritura. Na Conferência em 1541 em Worms, Melancton expressou que estava estupefato com o conhecimento de Calvino e o chamou simplesmente de ''O teólogo''. Em tempos modernos, T. H. L Packer concorda e diz: '' Agostinho e Lutero eram talvez superiores ao pensamento criativo; Aquino em filosofia; mas em teologia sistemática, Calvino permanece supremo''.³ E Benjamim Warfield afirmou: ''Nenhum outro teve uma percepção mais profunda de Deus.''4 Mas a época era bárbara, nem mesmo Calvino escapou das evidências dos seus próprios pecados e dos pontos obscuros de sua própria época.

A vida era severa, até mesmo brutal, no século XVI. Não havia sistemas de esgoto ou de água encanada, aquecimento central ou refrigeração, antibióticos ou penicilina, aspirina ou cirurgia para apendicite, anestésicos para extração de dentes ou más de lavar e secar, fornos ou canetas, máquina de escrever ou computadores. Calvino, como muitos de outro de sua época, sofria de ''males crônicos''. Se a vida podia ser miserável fisicamente, podia se tornar ainda mais perigosa socialmente e mais miserável ainda moralmente. Os libertinos na igreja de Calvino, como seus equivalentes em Corinto no século I, deleitavam-se em tratar a ''comunhão dos santos'' como uma justificação para troca de esposa. A oposição de Calvino fez dele uma vítima de violência de multidões por mais de uma vez.
Esses tempos, não eram somente doentios, severos e imorais, como também frequentemente bárbaros. É importante entender isso, pois Calvino não escapou da influência de sua época. Ele descreveu numa carta a crueldade comum em Genebra. ''Uma conspiração de homens e mulheres foi recentemente descoberta, a qual, por um período de três anos, havia (intencionalmente) espalhado a praga pela cidade. Não sei qual artimanha perversa usaram para isso.'' Como resultado disso, quinze mulheres foram queimadas na fogueira. Calvino Comenta: '' Alguns homens têm sido punidos mais severamente; alguns cometeram suicídio na prisão; e enquanto 25 ainda são mantidos prisioneiros, os conspiradores não cessam (...) de lambuzar as fechaduras das residências com seus unguento venenoso.''

Essa espécie de punição capital aguardava não somente os criminosos, mas os próprios reformadores. Calvino foi expulso de sua terra natal, França, sob ameaça de morte. Nos vinte anos seguintes, ele agonizou pelos mártires de seu país e se correspondeu com muitos deles enquanto caminhavam fielmente para fogueira, em que seriam queimados. Calvino poderia ter tido o mesmo destino com uma leve mudança na providência. ‘’Não temos somente o exílio a temer, pois todos os meios de morte mais cruéis e variados pendem sobre nós, já que, motivados pela religião, eles não colocarão limites a suas barbaridades’’.
Essa atmosfera deu origem à maior e à pior façanha de Calvino. Sua maior façanha foi escrever as Institutas da religião cristã e a pior foi sua participação na condenação do herege Miguel Serveto, queimado em Genebra. O livro das Institutas foi publicado pela primeira vez em março de 1536, quando Calvino tinha 26 anos. O livro passou por cinco edições e ampliações até chegar sua forma atual na edição de 1559. Se esse fosse a única obra de Calvino – e não 48 volumes outras obras, isso já o teria tornado o mais notável teólogo da reforma. Mas sua obra não surgiu simplesmente por razões acadêmicas. Veremos no Capítulo 3 que ela surgiu como tributo e defesa dos mártires protestantes na França.

Mas ele próprio não conseguiu se livrar dessa mesma crueldade. Miguel Serveto, espanhol, era médico, advogado e teólogo. Sua doutrina sobre a Trindade não era ortodoxa – a ponto de chocar tanto católicos como os protestantes dos seus dias. Em 1553, ele publicou o que pensava e foi preso pelos católicos na França. Mas escapou e fugiu para Genebra, onde foi preso. Calvino participou do processo contra ele, acusando-o. Serveto foi condenado à morte na fogueira, porém Calvino pediu uma execução mais rápida. Entretanto, o condenado foi queimado vivo na estaca no dia 27 de outubro de 1533.

Esse fato maculou o nome de Calvino tão severamente que muitos não conseguem nem ouvir seus ensinamentos. Mas não sabemos a maioria de nós, se estivéssemos naquele meio social, não teria agido da mesma forma sob tais circunstâncias. Melancton era um homem pacífico e de voz suave, companheiro de Martinho Lutero, que Calvino havia conhecido e amado. Ele escreveu a Calvino sobre o caso de Serveto:: ‘’ Sou inteiramente a favor de sua opinião e declaro que seus magistrados agiram corretamente em condenar à morte de tal blasfemador’.5 Calvino nunca teve um ofício civil em Genebra. Toda sua influência foi exercida como pastor. Porém, com essa execução, suas mãos estavam tão sujas com o sangue de Serveto como as de Davi com o sangue de Urias.

Isso torna as confissões de Calvino no final de sua vida ainda mais importantes. No dia 25 de Abril de 1564, um mês antes de sua morte, ele chamou os magistrados da cidade ao seu quarto e lhes disse: ‘’Com toda a minha alma abraço a misericórdia que [Deus] tem exercido para comigo em Jesus Cristo, expiando meus pecados com os méritos de sua morte e paixão. Que desta forma ele possa propiciar todos os meus crimes e faltas, e apagá-los da sua memória (...) Confesso que tenho falhado inúmeras vezes em executar com meu ofício adequadamente, e se ele não tivesse, com sua abundante bondade, me assistido, todo aquele zelo teria sido passageiro e vão (...) Por toda essas razões, testifico e declaro que não tenho qualquer outra segurança para minha salvação a não ser esta, e somente esta, a saber, que Deus é o Pai da misericórdia, e que ele irá mostrar-se como Pai para mim, que reconheci a mim mesmo como miserável pecador’’.6

T. H. L. Packer disse: ‘’ Ele não devia ter lutado a batalha da fé com as armas do mundo’’.7 A maioria de nós concordaria com isso. Se calvino chegou a essa conclusão antes de morrer, não sabemos. Mas o que sabemos é que Calvino se via como um ‘’miserável pecador’’ cuja única esperança diante de ‘’todos [seus] crimes’’ era a misericórdia de Deus e o sangue de Jesus.     

Fonte: O legado da Alegria soberana, p. 31-35, John Piper, Sheed Publicações.


Referências:

1 – HENDERSON, Calvin in His letters, p. 68.       
2- Ibid., p. 113-114.
3- PARKER, portrait of Calvin, p. 49. Jacob Arminius, geralmente considerado o antagonista histórico do calvinismo, escreveu: ‘’[Calvino] é incomparável na interpretação das Escrituras e seus comentários devem ser mais valorizados do que tudo que nos é legado pela biblioteca dos pais.’’
4- WARFIELD, CALVIN AND AUGUSTINE, P. 24
5- HENDERSON, Calvin in his letters, p. 75.
6- DILLENBERGER, John Calvin, selections from his writings, p. 71
7-PARKER, Portrait of Calvin, p. 103.