João Calvino era muito diferente de Lutero, mas igualmente filho de uma
geração cruel e rude. Ele e Lutero nunca se encontraram, mas se respeitavam
profundamente. Quando Lutero leu a defesa de Calvino sobre a Reforma, dirigida
ao cardeal Sadoleto em 1539, disse: '' Eis aqui uma obra que possui mãos e pés.
Alegro-me que Deus levante tais homens''.¹ Calvino retribuiu esse respeito a
Lutero na única carta que conhecemos, que Lutero nunca recebeu. '' Se ao menos
eu pudesse voar até você para poder, mesmo que por algumas horas, desfrutar da
alegria da sua companhia, pois preferiria, e seria muito melhor (...) conversar
pessoalmente com você; mas vendo que isso não nos será concedido na Terra,
espero que isso ocorra brevemente no reino de Deus.''² Conhecendo suas circunstâncias
melhor do que nós as conhecemos, e talvez, conhecendo melhor os seus pecados,
eles podiam passar, nas suas afeições, por cima das falhas um dos outros com
mais facilidade.
Não tem sido fácil para os outros. A grandeza dos ''louvores'' e elogios
dado a João Calvino tem sido igualada à seriedade e severidade de críticas. Em
sua época, até mesmo seus contemporâneos brilhantes se fascinaram com a
compreensão de Calvino sobre a plenitude da Escritura. Na Conferência em 1541
em Worms, Melancton expressou que estava estupefato com o conhecimento de
Calvino e o chamou simplesmente de ''O teólogo''. Em tempos modernos, T. H. L
Packer concorda e diz: '' Agostinho e Lutero eram talvez superiores ao
pensamento criativo; Aquino em filosofia; mas em teologia sistemática, Calvino
permanece supremo''.³ E Benjamim Warfield afirmou: ''Nenhum outro teve uma
percepção mais profunda de Deus.''4 Mas a época era bárbara,
nem mesmo Calvino escapou das evidências dos seus próprios pecados e dos pontos
obscuros de sua própria época.
A vida era severa, até mesmo brutal, no século XVI. Não havia sistemas
de esgoto ou de água encanada, aquecimento central ou refrigeração,
antibióticos ou penicilina, aspirina ou cirurgia para apendicite, anestésicos
para extração de dentes ou más de lavar e secar, fornos ou canetas, máquina de
escrever ou computadores. Calvino, como muitos de outro de sua época, sofria de
''males crônicos''. Se a vida podia ser miserável fisicamente, podia se tornar
ainda mais perigosa socialmente e mais miserável ainda moralmente. Os
libertinos na igreja de Calvino, como seus equivalentes em Corinto no século I,
deleitavam-se em tratar a ''comunhão dos santos'' como uma justificação para
troca de esposa. A oposição de Calvino fez dele uma vítima de violência de
multidões por mais de uma vez.
Esses tempos, não eram somente doentios, severos e imorais, como também
frequentemente bárbaros. É importante entender isso, pois Calvino não escapou
da influência de sua época. Ele descreveu numa carta a crueldade comum em
Genebra. ''Uma conspiração de homens e mulheres foi recentemente descoberta, a
qual, por um período de três anos, havia (intencionalmente) espalhado a praga
pela cidade. Não sei qual artimanha perversa usaram para isso.'' Como resultado
disso, quinze mulheres foram queimadas na fogueira. Calvino Comenta: '' Alguns
homens têm sido punidos mais severamente; alguns cometeram suicídio na prisão;
e enquanto 25 ainda são mantidos prisioneiros, os conspiradores não cessam
(...) de lambuzar as fechaduras das residências com seus unguento venenoso.''
Essa espécie de punição capital aguardava não somente os criminosos, mas
os próprios reformadores. Calvino foi expulso de sua terra natal, França, sob
ameaça de morte. Nos vinte anos seguintes, ele agonizou pelos mártires de seu
país e se correspondeu com muitos deles enquanto caminhavam fielmente para
fogueira, em que seriam queimados. Calvino poderia ter tido o mesmo destino com
uma leve mudança na providência. ‘’Não temos somente o exílio a temer, pois
todos os meios de morte mais cruéis e variados pendem sobre nós, já que,
motivados pela religião, eles não colocarão limites a suas barbaridades’’.
Essa atmosfera deu origem à maior e à pior façanha de Calvino. Sua maior
façanha foi escrever as Institutas da religião cristã e a pior foi sua
participação na condenação do herege Miguel Serveto, queimado em Genebra. O
livro das Institutas foi publicado pela primeira vez em março de 1536, quando
Calvino tinha 26 anos. O livro passou por cinco edições e ampliações até chegar
sua forma atual na edição de 1559. Se esse fosse a única obra de Calvino – e não
48 volumes outras obras, isso já o teria tornado o mais notável teólogo da
reforma. Mas sua obra não surgiu simplesmente por razões acadêmicas. Veremos no
Capítulo 3 que ela surgiu como tributo e defesa dos mártires protestantes na
França.
Mas ele próprio não conseguiu se livrar dessa mesma crueldade. Miguel
Serveto, espanhol, era médico, advogado e teólogo. Sua doutrina sobre a
Trindade não era ortodoxa – a ponto de chocar tanto católicos como os
protestantes dos seus dias. Em 1553, ele publicou o que pensava e foi preso
pelos católicos na França. Mas escapou e fugiu para Genebra, onde foi preso.
Calvino participou do processo contra ele, acusando-o. Serveto foi condenado à
morte na fogueira, porém Calvino pediu uma execução mais rápida. Entretanto, o
condenado foi queimado vivo na estaca no dia 27 de outubro de 1533.
Esse fato maculou o nome de Calvino tão severamente que muitos não
conseguem nem ouvir seus ensinamentos. Mas não sabemos a maioria de nós, se
estivéssemos naquele meio social, não teria agido da mesma forma sob tais
circunstâncias. Melancton era um homem pacífico e de voz suave, companheiro de
Martinho Lutero, que Calvino havia conhecido e amado. Ele escreveu a Calvino
sobre o caso de Serveto:: ‘’ Sou inteiramente a favor de sua opinião e declaro
que seus magistrados agiram corretamente em condenar à morte de tal blasfemador’.5
Calvino nunca teve um ofício civil em Genebra. Toda sua influência foi exercida
como pastor. Porém, com essa execução, suas mãos estavam tão sujas com o sangue
de Serveto como as de Davi com o sangue de Urias.
Isso torna as confissões de Calvino no final de sua vida ainda mais
importantes. No dia 25 de Abril de 1564, um mês antes de sua morte, ele chamou
os magistrados da cidade ao seu quarto e lhes disse: ‘’Com toda a minha alma
abraço a misericórdia que [Deus] tem exercido para comigo em Jesus Cristo,
expiando meus pecados com os méritos de sua morte e paixão. Que desta forma ele
possa propiciar todos os meus crimes e faltas, e apagá-los da sua memória (...)
Confesso que tenho falhado inúmeras vezes em executar com meu ofício
adequadamente, e se ele não tivesse, com sua abundante bondade, me assistido,
todo aquele zelo teria sido passageiro e vão (...) Por toda essas razões,
testifico e declaro que não tenho qualquer outra segurança para minha salvação
a não ser esta, e somente esta, a saber, que Deus é o Pai da misericórdia, e
que ele irá mostrar-se como Pai para mim, que reconheci a mim mesmo como
miserável pecador’’.6
T. H. L. Packer disse: ‘’ Ele não devia ter lutado a batalha da fé com
as armas do mundo’’.7 A maioria de nós concordaria com isso. Se
calvino chegou a essa conclusão antes de morrer, não sabemos. Mas o que sabemos
é que Calvino se via como um ‘’miserável pecador’’ cuja única esperança diante
de ‘’todos [seus] crimes’’ era a misericórdia de Deus e o sangue de Jesus.
Fonte: O legado da Alegria soberana, p. 31-35, John Piper, Sheed Publicações.
Referências:
1 – HENDERSON, Calvin in His letters, p. 68.
2- Ibid., p. 113-114.
3- PARKER, portrait of Calvin, p. 49. Jacob
Arminius, geralmente considerado o antagonista histórico do calvinismo,
escreveu: ‘’[Calvino] é incomparável na interpretação das Escrituras e seus
comentários devem ser mais valorizados do que tudo que nos é legado pela
biblioteca dos pais.’’
4- WARFIELD, CALVIN AND AUGUSTINE, P. 24
5- HENDERSON, Calvin in his letters, p. 75.
6- DILLENBERGER, John Calvin, selections from his writings, p. 71
7-PARKER, Portrait of Calvin, p. 103.

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