Estou impressionado com a postura de alguns reformados em relação ao pentecostalismo ultimamente. Alguns, de forma exclusivista, têm excluído não só o pentecostalismo, mas também outras tradições do cristianismo, colocando-as em cheque por discordarem em alguns pontos secundários da fé cristã.
Um amigo comentou comigo há pouco tempo que um desses "exclusivistas" até ficou em dúvida em relação à salvação de homens como David Wilkerson e A.W. Tozer, que apresentaram evidências de salvação tanto por seus ensinos quanto por seus testemunhos, mas, por pertencerem ao pentecostalismo, esses exclusivistas não os reconhecem. Muitos que têm pensado e se portado deste modo são contra até líderes da tradição reformada que consideram os pentecostais tradicionais como irmãos na fé.
Creio que a causa desse extremo exclusivismo de alguns reformados é o fato de não saberem distinguir entre pontos fundamentais e pontos periféricos na fé cristã. Os pontos fundamentais são aqueles que todos os cristãos devem crer e que são essenciais para a salvação e a comunhão entre eles; os pontos secundários são aqueles em que podemos discordar e ainda assim continuar sendo irmãos na fé. Franklin Ferreira faz uma boa distinção sobre o assunto quando diz:"Em outras palavras, DEVEMOS FAZER UMA DISTINÇÃO ENTRE HERESIA E ERRO. A heresia é uma negação do que é essencial para a salvação, tema este que nos distingue como evangélicos. Já o erro é uma negação de algum aspecto da verdade revelada que não é essencial para a salvação. Por isso, a heresia e o erro devem ser evitados; no entanto, somente a heresia deve ser considerada um obstáculo intransponível para a comunhão."¹Não estou abrindo espaço para que nos pontos essenciais não nos preocupemos em ser bíblicos; devemos falar tudo de acordo com a sã doutrina e anunciar toda a verdade de Deus (Tito 2:1, Atos 20:27). De fato, se alguém não crer que Cristo ressuscitou, o que é um ponto fundamental na fé cristã, nossa fé é vã (1 Coríntios 15:14). Mas, se discordar sobre se o batismo é por aspersão ou imersão, isso não impedirá a pessoa de ser salva e não atrapalhará sua comunhão com o próximo.Outro problema que alguns desses reformados têm enfrentado é o fato de não saberem distinguir pentecostalismo de neopentecostalismo. Alguns dizem que abominam essas aberrações ensinadas pelo pentecostalismo, como cair no chão, unção do riso, etc. De fato, são coisas abomináveis e manifestações antibíblicas, mas historicamente não são ensinadas pelo pentecostalismo. Conheço muitos pentecostais que levam as Escrituras a sério e abominam essas práticas. Alguns ousam chamar o pentecostalismo de seita, mas quem tem se portado como seita são esses que pregam esse exclusivismo.
Norman Geisler define o exclusivismo da seguinte maneira:"O exclusivismo religioso afirma que apenas uma religião pode ser verdadeira, e todas as outras opostas à única religião verdadeira devem ser falsas."²
De fato, em certo sentido, o cristianismo é exclusivista; somente há salvação em Cristo e somente quem crer nele será salvo (João 3:16-18,36; 14:6; Atos 4:12). Mas isto, no que tange a outras religiões, não deve se aplicar aos que professam a Cristo, pois isso é característico de seitas.É preocupante essa atitude de alguns cristãos. Muitos não estão se preocupando se tais igrejas pregam o Evangelho em si, mas se elas têm o termo "reformado" ou são cessacionistas, para serem caracterizadas como igrejas bíblicas e "aceitáveis" para eles. Não nego os erros que há no pentecostalismo, discordo em alguns pontos, mas sei que sua história e declaração de fé nunca transgrediram os principais pontos da fé cristã e que sempre houve homens sérios de Deus que proclamaram o Evangelho da glória de Cristo fielmente.Também amo a tradição reformada e considero a qual pertenço, mas se para alguns ser reformado é se portar deste modo, prefiro perder esse título para me portar de modo bíblico.
Oremos ao Senhor para que possamos amar toda a Sua verdade e, tanto nos pontos fundamentais quanto nos periféricos, possamos ser fiéis à Sua Palavra para glorificar o Seu nome. Mas, caso discordemos em pontos que não destruam o Evangelho e que não atrapalhem nossa salvação, possamos amar e ter comunhão uns com os outros, ajudando-nos mutuamente para que cresçamos na fé, instruindo cada um para que esses erros sejam corrigidos.Para encerrar, fico com as palavras de Richard Baxter: "Nas verdades fundamentais, unidade. Nas questões secundárias, liberdade. Em todas as coisas, caridade (ou amor)."
1- FERREIRA, Franklin & MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova, 2008. p. XXV.
2- GEISLER, Norman L. Enciclopédia de Apologética. Editora Vida. São Paulo, SP: 2002. p. 332